The forgotten Light of day, waiting for me outside of this cave
  • Daniel

Teologia Poética e Espiritismo através da análise da "Divina Comédia" de Dante Alighieri

Atualizado: 12 de out. de 2021

Dante Aliguieri

(Florença, entre 21 de maio e 20 de junho de 1265 d.C. — Ravena, 13 ou 14 de setembro de 1321 d.C.) foi um escritor, poeta e político florentino, nascido na atual Itália.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri

Divina Comédia

A Divina Comédia (em italiano: Divina Commedia, originalmente Comedìa e, mais tarde, denominada Divina Comédia por Giovanni Boccaccio) é um poema de viés épico e teológico da literatura italiana e mundial, escrito por Dante Alighieri no século XIV e dividido em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

Contexto e sentido

Escrito originalmente em italiano vulgar baseado no dialeto toscano da época e bastante semelhante ao italiano atual, e não em latim como fazia-se comum à época, trata-se de um poema articulado por trilogias, entre elas as formadas por Razão - Humano - Fé, Onça - Leão - Loba, Pai - Filho - Espírito Santo; e com final feliz segundo sugerido pelo próprio nome: à época em que Dante escreveu o poema os textos eram separados entre Comédia, obras dotadas de finais felizes, e Tragédias, com finais contrastantes aos das Comédias.

Não há registro da data exata em que foi escrita, mas as opiniões mais reconhecidas asseguram que o Inferno pode ter sido composto entre 1304 e 1307-1308, o Purgatório de 1307-1308 a 1313-1314 e, por último, o Paraíso, de 1313-1314 a 1321 (esta última data coincide com a morte de Dante).

O poema - talvez o maior do Ocidente - descreve uma viagem onde se sucedem diversos acontecimentos. Sua força está na riqueza das alegorias, que tornam o relato atemporal.

Dante escreveu a "Comédia" - um poema de estrutura épica, com propósitos filosóficos - no seu dialeto local, o florentino, que é uma variedade do toscano. O poeta demonstrou que o florentino (muito próximo do que hoje é conhecido como língua italiana), uma língua vulgar (em oposição ao latim, que se considerava como a língua apropriada para discursos mais sérios), era adequado para o mais elevado tipo de expressão, estabelecendo-o como italiano padrão. De fato, é a matriz do italiano atual.

Há quem veja esta obra como a Suma Teológica, de São Tomás de Aquino, em verso.

Grandes pintores de diferentes épocas criaram ilustrações para a Divina Comédia, destacando-se Botticelli, Gustave Doré e Dalí.

A Divina Comédia é a fonte original mais acessível para a cosmovisão medieval, que dividia o Universo em círculos concêntricos. A obra moderna mais conhecida a respeito dessa cosmovisão é The Discarded Image, de C. S. Lewis, ilustrada por Gustave Doré.

Explicações sobre o sentido do simbolismo na obra são complexas e muito debatidas, como é o caso de se saber exatamente o significado da amada Beatriz: seria ela apenas um amor carnal, o estado, a igreja, o amor metafísico ou outro? O próprio Dante confirma esta complexidade afirmando que a obra possui quatro sentidos sobrepostos: literal, moral, alegórico e místico.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Com%C3%A9dia

As Trilogias

Trilogias usadas na Divina Comédia
Trilogias usadas na Divina Comédia

O pecado imperdoável

O pecado contra o Espírito Santo – Contra a própria Fé – A desgraça que a adoração à Loba (a máxima corrupção da Fé) traz à Terra.


«Pois se pecamos voluntariamente, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, senão uma certa expectação terrível do juízo e um ardor de fogo que há de devorar aos adversários”.


Diversas passagens na Bíblia são frequentemente interpretadas como fazendo referência ao pecado imperdoável:

  • «Em verdade vos digo: Que aos homens serão perdoados todos os pecados, e as blasfêmias que proferirem; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão, pelo contrário é réu de um pecado eterno.» (Marcos 3:28-30):

  • «Por isso vos declaro: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada. Ao que disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; porém ao que falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro.» (Mateus 12:31-32)

  • «Digo-vos ainda: Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará perante os anjos de Deus; mas o que me negar diante dos homens, será negado perante os anjos de Deus. Todo aquele que proferir uma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas o que blasfemar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado.» (Lucas 12:8-10)

  • «Pois é impossível que os que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro, e depois caíram; impossível é renová-los outra vez para o arrependimento, visto que eles crucificam de novo para si o Filho de Deus e o expõem à ignomínia.» (Hebreus 10:26)

  • «Pois se pecamos voluntariamente, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, senão uma certa expectação terrível do juízo e um ardor de fogo que há de devorar aos adversários. Aquele que transgride a Lei de Moisés, sendo-lhe provado com duas ou três testemunhas, morre sem misericórdia; de quanto mais severo castigo, pensais vós, será julgado digno aquele que calca aos pés o Filho de Deus e tem em conta de profano o sangue da aliança, com que foi santificado, e ultraja ao Espírito da graça?» (Hebreus 6:4-7)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pecado_imperdo%C3%A1vel

Sinopse (O sentido literal da Divina Comédia)

A Divina Comédia propõe que a Terra está no meio de uma sucessão de círculos concêntricos que formam a Esfera armilar e o meridiano onde é Jerusalém hoje, seria o lugar atingido por Lúcifer ao cair das esferas mais superiores e que fez da Terra Santa o Portal do Inferno. Portanto o Inferno, responderia pela depressão do Mar Morto, onde todas as águas convergem, e o Paraíso e o Purgatório seriam os segmentos dos círculos concêntricos que juntos respondem pela mecânica celeste e os cenários comentados por Dante, num poema envolvendo todos os personagens bíblicos do Antigo ao Novo Testamento, que são costumeiramente encontrados nas entranhas do Inferno sendo que os personagens principais da Divina Comédia são o próprio autor, Dante Alighieri, que realiza uma jornada espiritual pelos três reinos do além-túmulo, e seu guia e mentor nessa empreitada, Virgílio - o próprio autor da Eneida.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Com%C3%A9dia

A Divina Comédia de Dante Aliguieri

Adaptação em prosa e notas

por Helder da Rocha

Inferno: Canto III

A porta do Inferno - Vestíbulo

POR MIM SE VAI À CIDADE DOLENTE, POR MIM SE VAI À ETERNA DOR, POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE.


JUSTIÇA MOVEU O MEU ALTO CRIADOR, QUE ME FEZ COM O DIVINO PODER, O SABER SUPREMO E O PRIMEIRO AMOR.


ANTES DE MIM COISA ALGUMA FOI CRIADA EXCETO COISAS ETERNAS, E ETERNA EU DURO. DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!


Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:

- Mestre, estas palavras são muito duras.

- Não tenhas medo - respondeu Virgílio, experiente - mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.

Em seguida, Virgílio segurou minha mão, sorriu para me dar confiança, e me guiou na direção daquele sinistro portal.

Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas.

Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei.

Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania.

Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:

- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?

- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. - me respondeu o mestre.

- Se misturam com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus.

Tanto o céu quanto o inferno os rejeitam.

- Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que lamentem tanto?

- Te direi em poucas palavras.

Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação.

O mundo não se lembrará deles,

a misericórdia e a justiça os ignoram.

Deixe-os. Só olha, e passa.

E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão,

correndo atrás de uma bandeira que nunca parava.

Estavam todas nuas, expostas a picadas de enxames de vespas que as feriam em todo o corpo.

O sangue escorria, junto com as lágrimas até os pés, onde vermes doentes ainda os roíam.

https://www.stelle.com.br/pt/inferno/canto_3.html

Umbral (espiritismo)

Umbral é usado na Doutrina Espírita para designar, na obra espírita Nosso Lar, psicografada por Chico Xavier e atribuída ao espírito de André Luiz, o "estado ou lugar transitório por onde passam as pessoas que não souberam aproveitar a oportunidade de evolução em sua vida na Terra".

Etimologia (origem da palavra)

UMBRA: substantivo feminino, da astronomia e significa a parte mais escura das manchas solares, que constitui a região mais central dessas manchas. Do latim significa "sombra".

UMBRAL: vem do espanhol, da palavra umbral, significa soleira da porta. Limiar, entrada.

No contexto do espiritismo, entretanto, a etimologia mais provável é "lugar das sombras" (do latim umbra = sombra).

Interpretações

O sentido espírita guarda os dois sentidos anteriores: primeiro por se tratar de uma dimensão que está "entre" a dimensão material (ou física) e a dimensão espiritual (ou sutil) e seria, para a maioria dos espíritos que desencarnam, a "porta de entrada" no plano espiritual.

Segundo "O Espiritismo A a Z", "Umbral é um imenso território da névoa que desempenha as funções de alfândega da espiritualidade".

Situado entre a Terra e o Céu, é dolorosa região de sombras, erguida e cultivada pela mente humana, em geral rebelde e ociosa, desvairada e enfermiça.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Umbral_(espiritismo)#Interpreta%C3%A7%C3%B5es

A Divina Comédia de Dante Aliguieri

Poema Original

INFERNO [ III ]


“POR mim se vai das dores à morada,

Por mim se vai ao padecer eterno,

3 Por mim se vai à gente condenada.


“Moveu Justiça o Autor meu sempiterno,

Formado fui por divinal possança,

6 Sabedoria suma e amor supremo.


No existir, ser nenhum a mim se avança,

Não sendo eterno, e eu eternal perduro:

9 Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”


Estas palavras, em letreiro escuro,

Eu vi, por cima de uma porta escrito.

12 “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”


Tornou Virgílio, no lugar perito:

— “Aqui deixar convém toda suspeita;

15 Todo ignóbil sentir seja proscrito.


“Eis a estância, que eu disse, às dores feita,

Onde hás de ver atormentada gente,

18 Que da razão à perda está sujeita”.


Pela mão me travando diligente,

Com ledo gesto e coração me erguia,

21 E aos mistérios guiou-me incontinênti.


Por esse ar sem estrelas irrompia

Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:

24 Também meu pranto, de os ouvir, corria.


Línguas várias, discursos insofridos,

Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,

27 Rumor de mãos, de punhos estorcidos,


Nesses ares, pra sempre enevoados,

Retumbavam girando e semilhando

30 Areais por tufão atormentados.


A mente aquele horror me perturbando,

Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora?

33 “Quem são esses, que a dor está prostrando?” —


“Deste mísero modo” — tornou — “chora

Quem viveu sem jamais ter merecido

36 Nem louvor, nem censura infamadora.


“De anjos mesquinhos coro é-lhes unido,

Que rebeldes a Deus não se mostraram,

39 Nem fiéis, por si sós havendo sido”.


“Desdouro aos céus, os céus os desterraram;

Nem o profundo inferno os recebera,

42 De os ter consigo os maus se gloriaram”.


— “Que dor tão viva deles se apodera,

Que aos carpidos motivo dá tão forte?” —

45 “Serei breve em dizer-to” — me assevera. —


“Não lhes é dado nunca esperar morte;

É tão vil seu viver nessa desgraça,

48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.


“No mundo o nome seu não deixou traça;

A Clemência, a Justiça os desdenharam.

51 Mais deles não falemos: olha e passa”.


Bandeira então meus olhos divisaram,

Que, a tremular, tão rápida corria,

54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.


E após, tão basta multidão seguia,

Que, destruído houvesse tanta gente

57 A morte, acreditado eu não teria.


Alguns já distinguira: eis, de repente,

Olhando, a sombra conheci daquele

60 Que a grã renúncia fez ignobilmente.


Soube logo, o que ao certo me revele,

Que era a seita das almas aviltadas,

63 Que os maus odeiam e que Deus repele.


Nunca tiveram vida as desgraçadas;

Sempre, nuas estando, as torturavam

66 De vespas e tavões as ferroadas.


Os rostos seus as lágrimas regavam,

Misturadas de sangue: aos pés caindo,

69 A imundos vermes o repasto davam.


Dante Alighieri. A Divina Comédia [com notas e índice ativo] . Centaur. Kindle Edition.

Minha interpretação

Para mim fica claro a relação entre a realidade sofrida pelos espíritos que o poeta florentino Dante procura descrever na sua obra clássica da Idade Média e a mesma realidade - mesmo que em parte - apresentada pelo conceito de Umbral do espiritismo.

E tenho que afirmar, reconheço parte desse sofrimento surgindo em alguns momentos na minha vida desde há 12 anos, em 2009.


Bandeira então meus olhos divisaram,

Que, a tremular, tão rápida corria,

54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.


Alguns já distinguira: eis, de repente,

Olhando, a sombra conheci daquele

60 Que a grã renúncia fez ignobilmente.


Soube logo, o que ao certo me revele,

Que era a seita das almas aviltadas,

63 Que os maus odeiam e que Deus repele.


(Bandeira: símbolo de um ideal; “Que a grã renúncia fez ignobilmente”, aqueles que "dizem sim para Deus, mas não fazem o que Ele quer", segundo as palavras de Jesus Cristo no evangelho; "Que os maus odeiam e que Deus repele")

 

Nunca tiveram vida as desgraçadas;

Sempre, nuas estando, as torturavam

66 De vespas e tavões as ferroadas.


Os rostos seus as lágrimas regavam,

Misturadas de sangue: aos pés caindo,

69 A imundos vermes o repasto davam.


(sofrem pelo bem em que puderam crer, mas não quiseram; pelo bem que puderam fazer, mas não fizeram)

 

Línguas várias, discursos insofridos,

Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,

27 Rumor de mãos, de punhos estorcidos,


Nesses ares, pra sempre enevoados,

Retumbavam girando e semilhando

30 Areais por tufão atormentados.


(sofrem pelo mal em que puderam evitar crer, mas não quiseram; pelo mal que puderam evitar fazer, mas que fizeram)

 

Não lhes é dado nunca esperar morte;

É tão vil seu viver nessa desgraça,

48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.


“No mundo o nome seu não deixou traça;

A Clemência, a Justiça os desdenharam.


(assim sofrem os fariseus - falsos-crentes -, e os escribas - intelectuais -; hipócritas doutores da lei)


Dante shown holding a copy of the Divine Comedy, next to the entrance to Hell, the seven terraces of Mount Purgatory and the city of Florence, with the spheres of Heaven above, in Domenico di Michelino's 1465 fresco
Dante shown holding a copy of the Divine Comedy - Domenico di Michelino, 1465

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